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Aviões e código
“Senta que lá vem história!”
― Lito Sousa
Durante o meu ensino fundamental, enquanto computador para mim se resumia em DDTank, Habbo Hotel e Animes Online, eu tinha um sonho muito diferente do que eu trabalho hoje, eu queria ser piloto de avião.
Cheguei a ir com a minha mãe em uma escola de aviação em Jundiaí chamada Academia das Águias realizar um orçamento para entender como era a formação, quanto tempo levaria e quanto custaria, saí de lá com um plano, quando fizesse 18 anos, já iria iniciar os estudos para a prova teórica da ANAC. Nesse meio tempo encontrei na biblioteca um livro sobre Linguagem C que mudaria minha perspectiva sobre o que eu realmente queria trabalhar.
Agora mais de 15 anos depois tenho refletido sobre o como a aviação é uma boa analogia para explicar o que estamos passando…
Como era voar nos anos 1920 e 1930 ?

Em Terra dos Homens, livro autobiográfico e memorialístico escrito por Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, ele narra as aventuras do que era ser um aviador nos anos 20 - 30.
Um bom aviador era aquele que já tinha cruzado e mapeado rotas extremamente perigosas, o que entendia de clima, vento e se conectava a aeronave como se fosse um só, pois tinha que tomar todas as micro decisões que pilotar uma aeronave envolvia.
Mas acima de tudo o livro trata isso como uma identidade, não era apenas um piloto, era um aviador.
Até hoje ser aviador ainda é uma identidade, as pessoas vão para aero clubes praticar, estudam sobre o tema e se aperfeiçoa, sem necessariamente ter uma visão de carreira ou expectativa de ganhos financeiros.
Mas se você quiser transportar 300 pessoas até o outro continente, a formação precisa ser outra.
Mas aviadores e programadores sempre vão existir
O que é preciso para se tornar um piloto de avião? (O grande do aeroporto)
A jornada para se tornar um piloto comercial é quebrada em algumas fases, primeiro você passa na prova teórica da ANAC e exames médicos, e depois pode começar a fazer aulas em aeroclubes, acompanhado de um instrutor, leva cerca de 10 a 20 horas até que você possa fazer o seu primeiro voo solo.
Mas, até aí, você não pode realizar voos remunerados.
Para trabalhar profissionalmente, é necessário obter a licença de Piloto Comercial e cumprir os requisitos de experiência de voo.
E, para chegar à aviação de linha aérea, a formação e a experiência exigidas são ainda maiores, chegando às 1.500 horas de voo para a licença de Piloto de Linha Aérea.
Muito estudo e muito treino
Como é voar nos dias atuais?
Na aviação comercial, o piloto trabalha em conjunto com sistemas altamente automatizados. Seu papel deixa de ser controlar continuamente cada movimento da aeronave e passa a envolver muito mais monitoramento, gerenciamento da automação e tomada de decisão.
Popularmente é dito que, o piloto só assume o comando, na decolagem, no pouso, e quando algo para de funcionar.
E quando algo para de funcionar, é que a formação, o treino, o estudo e a experiência entram em cena.
Porque um piloto tem a capacidade de pilotar um avião ainda que os equipamentos apresentem falha, ainda que o piloto automático pare de funcionar e até mesmo se um motor falhar.
Por que mesmo depois de anos de experiência o piloto comercial não esquece dos procedimentos ou tem um “Brain Freeze” por causa do piloto automático?
Para isso, de forma recorrente as companhias adotam:
- Treinamento recorrente: periódicos em simulador, cobrindo sistemas, procedimentos, emergências e CRM.
- Simulação de emergências: falhas de motor, incêndio, despressurização, windshear, falhas de automação etc.
- Avaliação de proficiência: o piloto precisa demonstrar que consegue executar procedimentos e tomar decisões corretamente.
- Automação: treinam o piloto para usar a automação, mas também para assumir manualmente e lidar com falhas.
- Experiência recente: se o piloto passa muito tempo sem voar, precisa recuperar a proficiência antes de voltar à operação normal.
Ou seja, mesmo com o piloto automático é importante que as empresas disponibilize um tempo para que o profissional saia do piloto automático, relembre os fundamentos, e não se esqueça de como assumir o controle, caso algo pare.
Nesse ponto, quero ser até mais explicito: É muito, muito importante que as empresas disponibilizem de meios para que os profissionais não tenham atrofia cognitiva de tanto usar uma ferramenta que faz tudo com uma ou duas palavras só
O que tudo isso tem haver com código/desenvolvimento?
Ainda é preciso muitas horas de treino, experiência para se tornar um desenvolvedor (Principalmente de empresas grandes).
Mesmo 90% do trabalho seja feito por uma IA, não significa que qualquer um pode fazer os outros 10%, nem mesmo que qualquer um pode assistir esses 90% sendo feito, se algo der errado, e vai (Lei de Murphy), quem está assistindo deve ser capaz de direcionar para o caminho correto.
É muito importante que as empresas criem mecanismos para evitar a degradação de proficiência causada pelo uso excessivo da automação.
Em outras palavras: precisamos de momentos em que o piloto automático seja desligado.
“Talvez a cada 30 dias pudéssemos ter alguns dias em que o uso de IA fosse deliberadamente reduzido.”
Amamos o Opus, Fable, Sonnet, Sol, GLM, KIMI…
Mas isso não pode ser empurrado em troca de produtividade absoluta, a ponto de causar a sensação de que estamos perdendo a capacidade e o tempo para analisar, construir soluções duráveis e lidar com problemas.
A produtividade sempre vai sobressair, por isso é preciso ajuda das empresas para equilibrar essa equação.
E por último, programadores sempre vão existir.
*Tudo que sei sobre aviação é através de canais como o Aviões e Músicas.
Lito, você está nas minhas orações.